Conclusões – Com filme

Viajar de moto significa muito mais do que conhecer belos lugares ou alcançar o destino. Significa melhorar o próprio auto conhecimento.

Posso dizer que esta viagem foi marcante e mudou vários dos meus antigos conceitos (ou preconceitos), ocasionando uma verdadeira evolução espiritual.

O isolamento do capacete foi cruel e tive que conviver constantemente com a saudade, com a solidão e principalmente com o medo, sentimentos que sem dúvida mexeram com a psique.

Administrei o medo e segui firme em meu propósito, embora os inúmeros pequenos memoriais feitos à beira das estradas não me deixavam esquecer que certamente estava fora de minha zona de conforto.

Andar por estas estradas, especialmente pela BR 116 e pela BR 101 não é tarefa para principiantes. São estadas muito movimentadas e por consequência muito perigosas. Pilotar por elas com chuva forte foi sem dúvida uma prova de minha devoção ao motociclismo e na total confiança em meu atento anjo da guarda.

Várias vezes fui “convidado a ir para o acostamento” por irresponsáveis motoristas que faziam ultrapassagens arriscadas e ainda “agradeciam” a gentileza de eu desviar. Não se tratava de uma gentileza mas sim de uma necessidade. Era desviar ou morrer!

Foi muito marcante o rosto desesperado do caminhoneiro que parou ao meu lado em um posto de combustível implorando para alguém chamar a Policia Rodoviária, pois havia acabado de presenciar um grave acidente envolvendo vários carros e duas carretas onde muitas pessoas estavam “machucadas” segundo ele. Era exatamente o local em que eu havia passado alguns minutos antes. Senti um frio na espinha pensando que eu poderia ser um dos envolvidos.

Aliás não acho aceitável estradas principais (como as duas BR’s citadas) terem pista simples. O intenso trafego aliado à falta de sinalização e logicamente à imprudência generalizada, tornam estas vias campeãs em ceifar vidas, uma tragédia anunciada que não podemos nos conformar.

Vários trechos estão em obras porém, obras eternas já que não há pessoas trabalhando tampouco maquinários na pista, apenas esqueletos de viadutos e trechos terraplanados. Um gigante fantasma para o dinheiro público.

O único ponto positivo é a razoável qualidade do asfalto, já que não tive muitos problemas com buracos (exceto pelos cento e poucos kms antes de Montes Claros), mas longe desta constatação ser um elogio, já que a manutenção das estradas é antes de mais nada uma obrigação governamental que no nosso caso, não está sendo cumprida.

Quando a viagem é feita de avião tudo parece lindo e belo, afinal nossos governantes se desdobram para mostrar aos turistas as belezas de suas respectivas cidades.

Quando se anda de moto, se presencia a realidade nua e crua. Várias foram as vezes em que agradeci fervorosamente à Deus pela maravilhosa vida que levo, pois não presenciei cenas de pobreza, mas sim cenas de miséria e exatamente a lembrança destas cenas me levaram às lágrimas na saída de João Pessoa como relatei. Foi ali que “caiu a ficha” de quão egoísta e arrogante eu sou (ou era), mesmo sendo um privilegiado em todos os sentidos!

As várias senhoras com crianças no colo espalhadas à beira da rodovia implorando por uma esmola na serra ao lado de Vitória da Conquista, foi algo muito difícil de digerir, bem como a imensa quantidade de ambulantes vendendo qualquer coisa em literalmente todas as lombadas (redutores) ao longo das rodovias. Pessoas miseráveis que necessitam de ajuda urgente.

Fico pensando no “bolsa família” e chego à conclusão que este programa está totalmente distorcido, criando uma série de “zumbis” e eternizando a mesma bandeira no poder. Em minha humilde opinião este programa deveria estar atrelado à obrigação das crianças (e por que não adultos?) estudarem, para quem sabe a longo prazo mudarmos este triste quadro. Se drásticas atitudes não forem tomadas, a miséria irá se perpetuar.

O Brasil não precisa do Bolsa Família… precisa de muito mais do que isso, precisa de empregos, precisa de ideias, precisa de honestidade!

O Brasil clama por governantes de pulso firme que enfrentem os imensos desafios, sem tentar mascarar a realidade dos fatos, mas acho que isso é uma utopia tão grande que não veremos nessa vida.

Em quem votar para mudar esta realidade? No partido que está no Governo e criou (ou melhor, aprimorou) dutos de corrupção desviando bilhões e bilhões do erário sem ter a competência de sequer concluir uma duplicação de rodovia? Que é capaz de afastar a possibilidade de ascensão social dos menos favorecidos com mascarados “programas sociais”? Ou teria sido o candidato da oposição melhor escolha? Depois de ver que sequer teve a capacidade (ou competência) de cuidar do asfalto das rodovias de seu próprio Estado, sem mencionar que construiu um inútil aeroporto em terras de seus parentes tenho minhas dúvidas!

Ah sim, já ia esquecendo, temos o brilhante governador de S.Paulo que transformou o Estado no Eldorado da Bandidagem enquanto fazia festa (com direito a cortar a fita e tudo) para inaugurar obra de captação do chamado “volume morto” de represas totalmente ressecadas. Deve estar festejando sua própria incompetência.

Resumindo, NÃO TEMOS OPÇÃO e clamamos por mudanças urgentes!

Falando de coisas boas, o povo nordestino é simplesmente FANTÁSTICO! Em cada parada eu era cercado pelos locais e tinha uma nova história para contar, como a vez em que um desafortunado garoto completamente mudo, tentou me perguntar algo sobre a moto e eu, obviamente sem saber qual era a pergunta, fui explicando tudo o que podia e, a julgar pelo sorriso em seu rosto, certamente acertei nas respostas. Inúmeras foram as vezes que me perguntaram sobre a moto, sobre a GoPro no capacete, sobre o intercomunicador e eu sempre satisfazia a curiosidade de todos, mudando radicalmente minha arrogante postura anterior.

Em uma destas paradas caia uma chuva forte, fui tomar um café para aquecer as ensopadas mãos e a senhora da lanchonete me falou… “moço, toma cuidado. A estrada está muito perigosa!” O aviso era real e pertinente, mas foi feito de uma forma tão genuína que a aflição daquela senhora em me ver de moto naquelas condições foi tocante.

Inesquecível também o olhar de admiração e as perguntas dos caminhoneiros sobre minha viagem, querendo saber principalmente se eu iria registra-la na internet! Claro que sim, como poderia deixar de fazer um registro de algo tão especial.

Como explicar a incrível coincidência de encontrar o agora amigo Claudicio que leu no www.portalbigtrails.com.br minha história com as motos escrita um ano antes e me reconheceu sem nunca ter sequer me visto! Ou então aqueles motociclistas que gentilmente me guiaram por longos kms em asfalto e na terra, apenas para me ajudar no primeiro caso a desviar do caótico trânsito de Recife  no caminho para João Pessoa e no segundo, para chegar à Fernão Dias novamente.

Em todos os lugares fui muito bem tratado, independente da classe social das pessoas. Eram desde frentistas, atendentes de praças de pedágio, balconistas até o proprietário de uma grande rede de farmácias ou de uma ótima rede de restaurantes (www.pastoepizza.com.br) bem como todas as pessoas que tive a sorte de passar breves momentos! O povo nordestino tem muito a ensinar!

Nada entretanto se comparou à emoção que senti na chegada a Fortaleza! A imagem do Lucas (meu filho mais novo) correndo para me abraçar, seguido por toda a família foi algo simplesmente inesquecível e a atitude deles me levou novamente às lágrimas. Quase recomposto, olhei para o lado e vi a encantadora sobrinha Gabriela, que com 3 anos de idade, também correu ao meu encontro e me deu um inesquecível beijo!

Agora posso concluir que a beleza em viajar de moto está nas pequenas coisas, está em conhecer as pessoas que cruzam o caminho, está em enfrentar os próprios medos, está na própria evolução!  Estes sentimentos são tão fortes, tão intensos que passar dias e dias sentado em um pequeno banco, com chuva ou sol e enfrentando todos os riscos e adversidades, torna-se prazeroso! É essa a essência do motociclismo, é disso que gostamos!

Durante esta viagem não tive um único incidente, nenhum susto, nada a relatar! Tudo funcionou perfeitamente bem, datas, horários, reservas tudo conforme planejado!

Lamento apenas não ter tirado mais fotos ou feito mais vídeos, porém, absolutamente tudo está eternamente gravado em minha memória e isso basta!

Minha companheira de viagem mostrou-se muito confiável e nenhuma manutenção se fez necessária, uma moto incrível e robusta que merece todos os aplausos e fez por merecer os carinhos que ganhou em Fortaleza e também na chegada a São Paulo!

Não posso encerrar este relato sem antes fazer os agradecimentos necessários…

A DEUS – por me proporcionar uma confortável vida e por ter iluminado meu caminho e me guiado em total segurança!

A minha esposa Patricia (que carinhosamente chamo de “namorada”) que permitiu a realização desta viagem me dando todo o apoio necessário. Ver o rosto dela nas chamadas de videoconferência era muito gratificante nas solitárias noites. Gostaria muito que ela me acompanhasse nas próximas jornadas, já que viajar com quem se ama deve ser uma sensação ainda mais prazerosa e que um dia, hei de conhecer.

Aos filhos Guilherme e Lucas, duas dádivas divinas que tive a sorte de ser pai, por sempre me ajudarem e, ainda que de forma peculiar, incentivarem.

Ao meu cunhado Ricardo, talvez o maior incentivador desta aventura e que possui o espírito motociclístico, mesmo sem nunca ter tido uma motocicleta. Espero sinceramente que na próxima jornada ele me dê o prazer de sua companhia, já montado em uma determinada alemã que ele tanto gosta!

A toda a família pelas orações e torcida para que tudo desse certo.

Aos meus pais, que desde criança nutriram meu espírito motociclístico como narrado no primeiro post deste blog.

Aos amigos virtuais do Portal Big Trails (www.portalbigtrails.com.br) pela ajuda que me deram no planejamento desta viagem e também na resolução de um pequeno defeito em meu intercomunicador.

Ao Claudicio, meu novo velho amigo que conheci em uma incrível coincidência e que me ajudou a alterar a rota de ultima hora.

Ao amigo motociclista que lamentavelmente não sei o nome e me guiou no entorno de Recife.

A todo o povo nordestino pelo carinho e simpatia geral.

Aos amigos da Rocket Riders (www.rriders.com.br) por manterem minha moto sempre impecável (vou pedir comissão…)

E por fim, à minha moto (Suzuki Vstrom 650) por ter me proporcionado total segurança sem nenhuma espécie de problema.

Esta viagem foi tão espetacular que vou convidar a família a passar as próximas festas de fim de ano no Chile, ou na Argentina e… adivinhem quais são minhas intenções?

Feliz ano novo a todos e até a próxima!


2 thoughts on “Conclusões – Com filme”

  1. Ola, ótimos postagens, quem sabe um dia chega a minha vez de se aventurar por esse tapete negro, em direção o nosso nordeste querido

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