Curvas, Oceanos e um Deserto – De San Pedro de Atacama a Cafayate

O dia foi tenso… muito tenso!

Após me despedir do casal de novos amigos Sylvio e Monica e de sua adorável filha que tive o prazer de conhecer e acompanhar nestes dias em San Pedro de Atacama era hora de ir para a estrada.

O caminho escolhido foi o Paso Sico que segundo informações obtidas no hotel estava em ótimo estado embora seja de rípio, perfeito para andar longe de tudo e de todos!

O caminho até o início do rípio teve aproximadamente 160 km de uma estrada simplesmente fantástica… algumas curvas, muitas retas, ninguém no caminho e paisagens maravilhosas… Ideal para permitir que o espírito saia livre por algum tempo. Meditei sobre a vida, sobre a viagem, sobre a família e a saudade chegou a doer no peito. Incrível a falta que a família faz em tão pouco tempo distante!

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Mais de 3000 msnm o asfalto deu lugar ao rípio (na verdade idêntico à uma estrada de terra brasileira) com muitas “costelas de vaca” pelo caminho que faziam até as obturações dos dentes pularem… Velocidade baixa era o lema!

Alguns km adiante, percebi que andando mais rápido (algo como 60/70 km/h) a moto se estabiliza e a trepidação diminui muito… Assim fiz, alternando a pilotagem em pé e sentado.

Passaram-se uns 10 km e a estrada de rípio se transformou praticamente em um tapete natural onde foi possível pilotar a 120 km/h em segurança. Nunca imaginei que pilotaria nessa velocidade fora do asfalto. Foi ótimo.

As paisagens são de tamanha magnitude que é muito difícil achar adjetivos para expressá-las e as muitas fotos que tirei não são capazes de transmitir a grandiosidade do lugar.

Cheguei à fronteira e os tramites aduaneiros são feitos em duas etapas… a primeira envolve apenas a saída do veículo feito pelos Carabineiros do Chile, tramite que fiz em 5 minutos. 30 km adiante é a vez dos trâmites de saída pessoal e todos os trâmites de entrada na Argentina. Feito de forma unificada.

2016-01-08 09.26.49-1 2016-01-08 09.26.54 2016-01-08 09.41.35 2016-01-08 09.41.47 2016-01-08 09.41.51 2016-01-08 10.06.04 2016-01-08 10.06.07 2016-01-08 10.14.53 2016-01-08 10.15.07 2016-01-08 10.44.32 2016-01-08 10.44.45 2016-01-08 10.44.53 2016-01-08 10.45.29 2016-01-08 10.45.35 2016-01-08 10.56.00-1 2016-01-08 11.00.39 2016-01-08 11.00.56 2016-01-08 11.00.58 2016-01-08 11.01.01 2016-01-08 11.16.42-1

A saída do Chile foi muito simples… 1 ou 2 minutos no máximo e meu passaporte já estava carimbado. Hora de entrar na Argentina e começaram os problemas… Primeiro por um erro na fronteira de Mendoza (Paso Libertador), não constava no sistema que eu já havia saído da Argentina… 15 minutos até que o problema fosse resolvido. Depois um pessimamente humorado funcionário pediu meu CPF original… PQP quem anda com o CPF original? Ele resmungou alguma coisa e falou que não pode permitir minha entrada sem o CPF, afinal era o único documento que tinha o número nos documentos da moto… Argumentei que seria impossível e ele fez que não entendeu… já vermelho de raiva, me lembrei que na habilitação consta tal número! Entreguei a ele o documento… Ele ficou olhando para minha habilitação e para os documentos da moto durante mais de 10 minutos, sem falar uma palavra até que começou a digitar alguma coisa em seu computador.

Muito tempo depois pediu para que eu o acompanhasse e fez uma minuciosa inspeção na moto, olhando bagagem, me fazendo abrir a mochila, a mala de tanque e até com uma lanterna por baixo da carenagem… Aquilo estava me deixando puto…

Como obviamente não achou nada, perguntou se eu levava alguma coisa e de pronto respondi que sim! –“Fotografias” falei… ele me devolveu os documentos sem dizer uma única palavra e abriu a cancela para que eu passasse! Tenho certeza que ele nasceu em Buenos Aires!

Enquanto me arrumava, percebi que a garrafa de água que eu havia amarrado se soltou e deve estar matando a sede de alguma lhama pelo caminho…

Do lado argentino as coisas pioraram e muito. Primeiro as paisagens que embora bonitas não se aproximam daquelas do lado chileno e segundo pelo rípio…

Assim que passei a fronteira a estrada se transformou e aquelas pequenas “costelas de vaca” se transformaram em gigantes tornando impossível manter uma velocidade acima de 20 km/h.
2016-01-08 11.16.49 2016-01-08 11.16.53 2016-01-08 11.17.02 2016-01-08 11.21.25 2016-01-08 11.21.36 2016-01-08 11.21.49 2016-01-08 12.56.16 2016-01-08 12.56.20 2016-01-08 14.13.08 2016-01-08 14.13.11 2016-01-08 14.44.03Depois veio a pior parte… o rípio se transformou em um pó muito próximo de areia o que deixou a pilotagem quase impossível. Pensei em desistir e retornar, mas além de já ter rodado muito, fazer os trâmites fronteiriços seria um transtorno. Segui em frente em 10 km de um rípio muito, mas muito fofo!

Desnecessário falar que nesses 10 km pelo menos 20 vezes eu tive certeza que o chão seria meu destino (em 3 delas eu cheguei a chutar o chão para recuperar o equilíbrio), mas a soma de sorte com ótimos pneus (e um pouquinho de habilidade também heheheh) me mantiveram em pé. Eu não temia um possível, ou melhor, provável tombo… meus pensamentos estavam em como eu iria erguer a moto carregada a mais de 4500 msnm! Seria impossível!

Confesso que estava com medo, aliás muito medo! O rípio não acabava e cada km que passava piorava mais e mais… eu não via uma única alma em todo o trajeto, tampouco nenhuma placa indicativa e a sede apertava. Cheguei a pensar estar perdido, mas a única coisa que eu deveria fazer é confiar no equipamento. Confiar que a moto não apresentaria problemas… confiar que o GPS traçou a rota corretamente… Confiar nos equipamentos de proteção para o inevitável tombo que se apresentava!

Como diz a bela música da Gloria Estefan (Reach) eu estava pondo meu espírito em teste… e que teste!

Subestimei o rípio e o cálculo distância/tempo que fiz foi completamente equivocado. Já passava das 16.00 hrs., ou seja, eu estava pilotando havia quase 8 horas e eu não via ninguém… nenhum posto de combustível… nenhum automóvel… nada! Também não havia entrado em contato com minha esposa e sabia que ela estava preocupada e isso doía ainda mais.

Depois de 270 km de rípio, já na Ruta 51 finalmente entrei no asfalto e vi uma placa indicando a cidade de Salta a 170 km! O alívio foi imediato e comecei a curtir a bela estrada com curvas fechadas e ótimo asfalto. Alguns kms a frente vejo uma placa que custei a acreditar… “fim de pavimentação a 1 km” Não… de novo não!

2016-01-08 15.47.36 2016-01-08 16.01.02 2016-01-08 16.01.07 2016-01-08 16.01.12 2016-01-08 17.48.23 2016-01-08 19.36.15 2016-01-08 19.36.18

Sim… fui para o rípio novamente, mas desta vez o problema não era tanto o piso, mas sim as bordas e curvas… Imagine uma estrada lotada de curvas a 180 graus, a mais de 4000 msnm, estreita, sem nenhum tipo de proteção e ainda por cima escorregadia… Pois é… senti medo novamente e segui pilotando com muito cuidado!

Faltando por volta de 15 km para Salta finalmente a Ruta 51 apresentou um belo asfalto e o celular deu sinal de vida me permitindo contatar a esposa para tranquilizá-la. Um outro detalhe importante… eu já havia rodado mais de 450 km e não havia um único posto de combustível… nada!

Parei em Salta para me hidratar e fazer uma verificação visual na moto que assim como eu, foi testada ao limite! Felizmente nada a relatar.

Ir pelo Paso Sico foi gratificante mas se eu tivesse que escolher novamente na mesma situação, iria pelo Jama sem dúvida. Não que não tenha gostado, muito pelo contrário! Achei maravilhoso e gratificante vencê-lo, mas enfrentar o Sico sozinho sinceramente não aconselho.

Faltavam ainda 190 km até Cafayate meu destino final e aqui a Ruta 68 me fez esquecer todos os sustos que passei. Foi uma recompensa divina pela verdadeira tortura física e psicológica que havia passado. Foram 190 km de curvas fechadas em meio à montanhas imensas e coloridas um prazer para ser desfrutado a baixa velocidade!

Cheguei em Cafayate as 20.00 horas… 12 horas após minha saída e percorri apenas 650 km sendo 300 em rípio e 350 nas curvas. Retas? Nenhuma!

Exausto, entrei no chuveiro com o conjunto de pilotagem completo, incluindo botas e luvas (kkk)! Esse foi o único jeito de tirar a poeira que transformou o preto em branco.

Saí para jantar na belíssima Cafayate… Um filé de 350 gramas, batatas fritas e um litro de cerveja Salta! Foi a comemoração de um dia simplesmente inesquecível!

14 thoughts on “Curvas, Oceanos e um Deserto – De San Pedro de Atacama a Cafayate”

  1. Uffffa, Betão. Passado essa tempestade, agora é só alegria. Aconselho voltar por Foz, porque o retorno independentemente de eu estar de carro, por Uruguaiana tem muito trânsito e além de não desenvolver uma boa velocidade necessita muita atenção. Venha com Deus. Abraço

    1. Viu do que eu te livrei? Se tivesse vindo junto ia sofrer! Kkkkkkk. Hoje estou em São Miguel das Missões já no Rio Grande do Sul. Entrei por Uruguaiana e de fato foi um caos. Demorei mais de uma hora! Depois apertei o ritmo é cheguei tranquilo. Valeu por acompanhar Pedrão!

  2. Cara, cada vez mais admiro quem tem coragem para fazer uma viagem destas.

    Parabéns pela conquista Roberto.

    Com certeza terá muitas estórias para contar aos netos/sobrinhos 🙂

  3. Mestre, estou no aniversário de um amigo e acabo de fazer um belo passeio lendo todos os seus posts. Neste interregno, com pequenas interrupções daqueles que não entendem o espírito aventureiro do motociclista, deixo meus sinceros agradecimentos e desejo tudo de bom para você e sua família. Obrigado!

    1. O motociclismo é algo místico. Poucos entendem o motivo de gostarmos disso afinal, não há lógica em passar longas horas sentado em um banco desconfortável, sujeito à problemas climáticos e correndo riscos supostamente desnecessários. Mas a vida não é lógica… Eu sou apaixonado pelo motociclismo e o prazer de superar os limites é inigualável! Muito obrigado Saraiva! Que as boas estradas sempre nos acompanhe!

  4. Roberto, acho que o melhor curso off road existente no planeta, nao chega perto de sua viagem, cada vez que leio, é como um seriado que ao terminar de assistir um capítulo, estamos empolgado em assistir o próximo, Camarada que relato, se fosse viajante ao redor do mundo, com certeza teria um programa em um dos canais da Discovery, e tanto ei como miitos, seriam seus fãs. Abração e até a volta.

    1. Muito exagerado, mas obrigado… fico contente que tenha gostado! Em um curso se vc. cair, haverá 50 pessoas para te ajudar a levantar além dos instrutores te dando dicas de como passar pelos obstáculos montados. Eu ainda vou fazer um desses. Lá no Sico, não tinha ninguém (literalmente)… se fosse pro chão ia ter que me virar para levantar a moto, e tive que descobrir como fazer sozinho! Amanhã a história terá um gran finale!

  5. Maravilha de relato. Assim você tá se preparando para viagens ainda mais aventureiras. O passo Sico foi um desafio e tanto e demonstrou que você passa 🙂

    1. Boko meu amigo, aquilo foi uma completa loucura! Confesso que estava com medo… Moto pesada, lugar isolado, eu sozinho, 4500msnm é um Areião que não acabava mais… A moto ganhou vida própria e começou a me desobedecer na direção. Foi tenso, muito tenso.

      Por outro lado, quando cheguei no asfalto o estado de euforia foi total e compensou o stress anterior.

      Vamos definir como uma doce loucura!

  6. Só para parabenizar (e agradecer) pelo excelente relato desse trecho. Bela aventura! Helena, Mônica e eu deixamos um grande abraço para você e para sua agora tranquilizada família.

    1. Obrigado Sylvio! Esse dia foi um verdadeiro “sufoco”, mas foi sem dúvida o mais memorável de todos! Um abração para vc. e mande um beijo para a Monica e para a Helena!

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