Curvas, Oceanos e um Deserto – Dias 3 e 4 – Chui / Buenos Aires / Mendoza – Só problemas…

Li certa vez que a principal e indispensável virtude que todo viajante deve ter é saber lidar com as crises que surgem pelo caminho… Eu teria que aprender isso da maneira mais penosa possível.

O terceiro dia iniciou com a saída do Chuí, literalmente no primeiro raio de sol e atravessando espessa neblina. Fiz todos os trâmites burocráticos em menos de 5 minutos e lá estava eu estreando rodar com minha própria moto em solo estrangeiro.

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A estrada é um tapete e com movimento zero, uma tentação, mas como não tinha pressa, afinal seriam “apenas” pouco mais de 500 km até Colonia de Sacramento teria tempo de sobra. Fui então curtindo o visual que nada tem de especial, exceto pelo fato da estrada confundir-se com a pista do aeroporto em determinado momento, uma situação no mínimo curiosa…  Parei para fotos e rumei para Punta Del Leste.

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Antes das 8.00 hrs. estava em Punta e pude curtir a cidade praticamente deserta! Fotos e mais fotos e saí à procura de um café aberto já que não havia tomado no hotel do Chuí por ter saído cedo demais.

Punta é linda! Cidade feita para milionários! Tudo muito bonito, muito arrumado e nada aberto.

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2015-12-28 07.46.17 2015-12-28 07.48.11 2015-12-28 07.49.49-1 2015-12-28 08.03.31 2015-12-28 08.03.40 2015-12-28 08.05.33 2015-12-28 08.36.59Pedi informação e descobri que praticamente tudo só abre as 9.00 hrs., inclusive os cafés! Peraí… que tipo de pessoa levanta tão tarde? Ah sim, os milionários que chegaram lá de helicóptero ou de Ferrari conversível… Para um pobre (literalmente) motociclista viajante aquilo era surreal…

Finalmente achei uma cafeteria aberta… café com leite, media luna com presunto e queijo e uma fatia de torta de maça…. Gastei o equivalente a R$ 100,00 nisso…  Decididamente descobri que estou ganhando pouco! kkk

Saí de punta enquanto todos dormiam e rapidamente cheguei  em Montevideo. Outra bela cidade, mas com trânsito intenso que me impossibilitou parar para fotografar… fiz apenas algumas filmagens com a GoPro que em breve estarão publicadas.  Cruzei a cidade e rumei para Colonia de Sacramento, lá chegando antes das 12.00 hrs.

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Dei uma volta na charmosa cidade e fui até o shopping esperar as 14.00 horas para entrar no Buquebus que me deixaria em Buenos Aires.  Parei a moto no estacionamento do shopping, abri o baú, peguei minha mochila com $, documentos e eletrônicos e guardei o capacete e a jaqueta. Encontrei outro amigo motociclista de Florianópolis, papeamos um pouco, tomei um sorvete (caríssimo), fiz o tempo passar até chegar a hora do embarque.

Voltei pra moto, separei a chave da ignição das outras, abri o baú, separei os documentos, guardei a mochila, fechei o baú, me arrumei e saí. Eu não sabia, mas esta sequencia traria terríveis consequências…

Gostei muito do Buquebus, confortável, rápido e prático com os tramites de saída do Uruguai e entrada na Argentina feitos em poucos segundos. Nota 10!

No momento do embarque, liguei a GoPro para filmar como é interessante procedimento, mas ao tirar o capacete, descobri que a câmera estava na mochila… kkk  Sem comentários!

Conheci o John, motociclista que saiu do Alaska com sua GS 800 e esta a quase três anos na estrada. Ficamos papeando um pouco misturando inglês, português e espanhol, mas como no mundo motociclístico só há uma língua, nos entendemos perfeitamente.

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Desembarquei na caótica Buenos Aires, cidade que não guardo muita estima. Todas as vezes que lá estive, algum problema aconteceu… Deve ser reflexo do ocorrido em 1981 quando ainda garoto passeava com minha família pelo centro da cidade pela primeira vez e uma pomba portenha mirou exatamente na minha cabeça para despejar suas necessidades… Eu não vou com a cara da cidade e ela com certeza não vai com a minha!

Sofri com o infernal trânsito e demorei para achar o hotel Ibis em que fiquei hospedado e quando o achei foi decepcionante. Está localizado em uma região de muitos “night club” de quinta categoria… não preciso dizer mais nada!

Parei a moto no estacionamento que ficava a 50 metros do hotel, comecei a descarregar a bagagem e… onde está a chave do baú????

Procura uma, duas, dez vezes e nada… perdi a chave! Como bom virginiano perfeccionista, obviamente eu peguei a chave reserva, mas… adivinhem onde ela estava? Sim… dentro da mochila trancada no baú! Brilhante! Trofeu “Asno de ouro”! kkk

Saí à caça de um chaveiro aberto e na falta de um, encontrei três e em todos fui pessimamente atendido e sem nem mesmo olharem para a fechadura, me falaram que era impossível abrir… pura má vontade!

Por providencia divina, meus documentos estavam no bolso da jaqueta, juntamente com cartões de crédito, porém, o dinheiro estava trancado…

Irritadíssimo saí à procura de um terminal ATM para sacar algum dinheiro… Não consegui… cada caixa informava um motivo diferente! Tentei na recepção do hotel e a resposta foi um curto “não posso” quando pedi para passar meu cartão de crédito e trocar em espécie.

Praguejando contra a cidade, tomei uma decisão um tanto arriscada, violando minhas próprias regras que estabeleci (e descritas em post anterior)… “Vou embora dessa cidade HOJE!” pensei.  Resolvi descansar um pouco e me deitei as 23.00 hrs. colocando o despertador para 01.00 hrs.  (Isso Roberto, muito seguro… decidiu encarar 1050 km até Mendoza rodando à noite e dormindo duas horas… ) Assim fiz.

Tomei banho, arrumei a bagagem, e consegui sacar algum dinheiro em Porto Madero (único lugar que gosto da cidade), abasteci e lá fui eu para a Ruta 7 colocando os pneus na estrada pontualmente as 03.00 hrs.

Depois de uma hora rodando em velocidade baixa por motivos óbvios e já um tanto arrependido da decisão tomada, recebo um telefonema da minha esposa que estava no aeroporto para embarcar rumo a Santiago… O Lucas, meu filho mais novo não poderia embarcar  sem minha autorização por escrito e com firma reconhecia! PQP onde eu ia arrumar um cartório as 04.00 hrs. no meio do nada?

O Guilherme, meu filho mais velho e já advogado, foi falar com o delegado do aeroporto e expôs a situação e a única solução encontrada foi eu ir até o consulado brasileiro em Buenos Aires para reconhecer minha assinatura na autorização encaminhando-a por fax ou email para o aeroporto. Imediatamente fiz meia volta e acelerei tentando chegar de volta em B.Aires o mais rápido possível.  Já estava planejando abortar a viagem e retornar para SP caso não desse certo, mas não conseguia achar uma solução plausível.

Em 5 minutos o Guilherme me liga dizendo que o problema estava solucionado! No passaporte do Lucas constava a autorização para que ele viajasse desacompanhado! Eu nem me lembrava disso e também não sei porque havia essa anotação, mas enfim… um problema a menos!

Mais uma meia volta e rumo a Mendoza!

Depois de 300 km rodados era hora de parar para reabastecer e também para fazer uma breve visita ao banheiro, já que a mistura de nervoso, ansiedade e medo costumam mexer um pouco com o meu sistema digestivo… Entrei em um banheiro nota 3, daqueles que vc. pensa duas vezes antes de usar… fechei a porta e fui conferir se havia papel higiênico… negativo! Felizmente eu como um detalhista trouxe meu próprio papel, mas… adivinhem onde ele estava? Sim, trancado no baú!  Usando a técnica do Lucas, “pus pra dentro” convencendo minhas entranhas a aguardarem mais um pouco…

Tomei um café e um redbull… mistura que deu muito certo, já que o sono nem pensou em aparecer!

Peguei a moto já abastecida e na saída do posto senti a mala bater nas minhas costas, sugerindo estar solta. Parei e com os pés no chão fui conferir em uma girada de tronco… a moto desequilibrou e la foi ao chão! Só faltava essa… As forças ocultas devem estar tirando onda comigo… Com muito, muito, mas muito esforço consegui erguer a moto carregada usando a técnica da alavanca segurando guidão e apoio pelas costas e flexionando as pernas. Nenhum dano na moto e apenas uma pancada na canela que ficou dolorida e agradecida à bota que estava usando.

Segui viagem… o dia amanheceu e pude constatar que a estrada era ótima! Hora de tirar o atraso… Andei constantemente entre 150/160 km/h, velocidade que estabeleci como limite da segurança (???), lembrando que a moto está calçada com pneus Karoo 3 e carregada. Confesso que muitas vezes tive que me conter já que a vontade era andar a 300 km/h!

Cada parada para reabastecimento uma nova conversa com as entranhas e estava cada vez mais difícil convence-la a aguardar!

Cheguei em Mendoza as 13.00 hrs. e fui direto para a concessionária BMW em busca de alguma solução.  Fui muito bem atendido onde me indicaram o chaveiro que presta serviços à eles. Fui direto até ele e… fechado! Que ótimo… me esqueci da tradicional “siesta” daqui… só abriria as 17.00 hrs!

Achei o hotel (Raízes Aconcagua – muito bom por sinal) onde pude tomar um refrescante banho frio e fazer um pequeno cochilo de uma hora antes de voltar ao chaveiro!

Retornei e depois de muito trabalho, finalmente o baú foi aberto!

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Embora arriscada e contra minhas próprias regras, a decisão de vir para Mendoza de madrugada se mostrou acertada. Saí da “zicada” cidade de Buenos Aires, cheguei em Mendoza cedo à tempo de ir na concessionária BMW e ser muito bem orientado. Se não tivesse feito isso, iria perder mais um dia certamente!

Gostei muito de Mendoza. Pessoas simpáticas, prestativas em uma cidade arborizada e razoavelmente tranquila. Com tudo nos eixos novamente amanhã será o dia da Cordilheira dos Andes, espero que sem imprevistos!

Ah… ia esquecendo… o banheiro do quarto do hotel é ótimo… limpo,  com vários rolos de papel higiênico e cheiroso! Pelo menos era…

 

Clique aqui para o ver o mapa de Chui a  Buenos Aires

Clique aqui para ver o mapa de Buenos Aires a Mendoza

 

Perdi as contas de consumo… mas nesse trecho deve ter girado em torno de 13 devido a mão mais pesada!

 

20 thoughts on “Curvas, Oceanos e um Deserto – Dias 3 e 4 – Chui / Buenos Aires / Mendoza – Só problemas…”

    1. Ricardo, no fim os imprevistos tornam-se a parte mais engraçada da viagem, desde que eles não impeçam o prosseguimento da viagem.
      Obrigado por acompanhar!

  1. RROMAGNANI, você não é o primeiro a passar por estes imprevistos e, com certeza, não será o último, exceto a zica da cidade Portenha. São emoções que ao serem lembradas no futuro vão lhe trazer muitos motivos para sorrir, e, com certeza você continua abençoado por Deus nesse passeio.
    Parabéns.

  2. Que apuro com a chave hein ?

    Não tem como mudar o miolo da fechadura do baú para usar a mesma chave de ignição ?

    E mais uma tirada de 1000km !! tá aproveitando o asfalto bom né ?

    Slow down !

    1. Pois é Boko… Perder a chave já foi triste, mas pior ainda foi guardar a reserva dentro do baú… Burrice pura mesmo!

      O baú da Givi não aceita a chave da BMW… já tentei unificar, mas não foi possível.

      Tiradas longas são cansativas, mas adiantam a viagem. Nesse dia, a estrada era ótima e deu para andar mais forte em segurança, porém nos próximos posts irei narrar um outro problema que vai acontecer! (e não é pessimismo, é fato!) kkk

  3. Roberto, isso somente pode acontecer com quem usa a moto para viajar. Então, a escolha é tua, ou fica em casa no sofá vendo televisão, ou vai viver a vida… e com a moto, claro. Boa (tenho certeza que será) passagem de Ano Novo pra ti e família.

    1. Plein meu amigo, não existe viagem sem nenhum tipo de imprevisto! Mas também não precisava exagerar! kkkk

      Obrigado por acompanhar a jornada!

  4. Roma Meu Amigão!
    Desculpe, a desgraça foi sua, mas estou rindo até agora!
    Amigas estas suas entranhas, não saberia dizer se tenho tão boas Amizades com as minhas!
    Boa Viagem e Feliz 2016 para vc e sua Família!
    Abraços
    Galileu

  5. Vou lhe dar uma dica,leve 3 chaves uma dela escondida pela moto ; já dizia um amigo o melhor de uma viagem e relembrar a viagem, boa e Feliz Ano.

    1. Boa dica Pepe, porém o baú vem acompanhado de duas chaves.

      Pior seria se eu tivesse três chaves e duas delas trancadas no baú! kkkk
      Obrigado por acompanhar!

  6. Lamento pelas dificuldades.
    Mas, desculpa aí, é isso que deixa o relato interessante…
    Se tudo estivesse muito fácil, seus relatos não ficariam gostosos de se ler…
    Boa sorte e que os desafios continuem sendo superados.

    1. kkkkk Também compartilho sua opinião Oscar, mas também essas dificuldades não precisam acontecer em sequencia! kkk

      Obrigado por acompanhar!

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